Tá chato, mas tá certo



Quem me segue no perfil pessoal no Instagram - @matheusfarizatto – pode ter percebido que passei a postar stories levantando bandeiras que podem parecer políticas, mas que, na verdade, são humanas.

Condenação de maus exemplos, valorização da diversidade e temas nesta linha passaram a entrar em sequência por ali.

Dentre os posts, recebi um direct com a mensagem “Aff... Tá chato” – depois de alguns outros vindos dessa mesma amiga, uma das minhas melhores amigas, que admira um figura que eu repudio; e o mais bacana é que eu amo essa minha amiga acima de qualquer afinidade que, somente neste caso, a gente possa não ter (risos).

Não vou falar sobre a tal figura que não curto ou mesmo sobre divergência de opiniões – essa segunda sempre maravilhosa de se ter para abrirmos nossas cabeças sobre diferentes pontos de vista. Vou falar sobre o que alguns podem chamar de militância.

Nunca fui pra rua bater panela ou fiquei na janela acendendo e apagando a luz da minha casa – até porque se queimar, eu mesmo que tenho que trocar e dos trinta e três anos para cá, passei a ter umas tonturas meio tensas.

Nunca fui de discutir política, vestir bandeira de arco-íris ou defender pretos discriminados. Isso tudo porque, até então, eu achei que não precisava.

Na minha ingênua cabeça, eu sempre pensei que as pessoas fossem capazes de ter bom senso.

Relativo?

Para mim não era – e, no conceito, para mim, continua não sendo relativo: ter bom senso é pensar no que é bom para o outro, que não vai prejudicá-lo, que o trata com justiça, com direito, que nos iguala como seres humanos desde que não cause mal ou tire qualquer tipo de oportunidade neste sentido.

Difícil seguir isso?

Quem não tem esse bom senso, eu pensei que conquistava com o tempo.

Sabe aquela coisa de ir vivendo, sentindo na pele, com o tempo e a idade, se informando, e então você aprende o que precisa? Pobre de mim, esperançoso assim.

Nós somos resultado da criação que tivemos, do meio em que vivemos, das feridas abertas que deixam influências sem critério entrarem em nós.

E é aí que entram figuras públicas que exercem influência sobre essas pessoas e mesmo amigos, parentes, maridos e esposas, que reforçam pontos de vistas prejudiciais. Porque, sim, os ignorantes também possuem seus fã-clubes.

Eu sou contra cota para negros? Sempre fui porque entendia que o direito deveria ser igual para todos. Mas é aí que está: não é. Tem que ter cotas para que só assim o processo de inclusão comece com a atenção que precisa e, com o tempo, seja algo que aconteça sem imposição, com naturalidade.

Eu sou gay e nunca fui de distribuir panfletos em favor da causa porque isso nunca me diferenciou em nada sobre oportunidades de amor, de trabalho e de família, por exemplo. Mas há quem seja prejudicado, sim, por sua sexualidade. E isso é um absurdo, sendo comigo ou não.

Mulheres com direitos iguais? Mesmo que não fossem humanas como os homens. E precisa, sim, botar o holofote sobre situações em que mulheres recebem alguma oportunidade que seja rara de atuação.

Temos que falar. Temos que mostrar. Temos que insistir. Só assim a coisa vai se abrir.

Comportamentos, ideias e falas, sejam de ódio, preconceito e qualquer outra forma de diminuir alguém que não fez mal algum a ninguém ou que plantem uma semente de abertura para que outras pessoas ajam da mesma forma: precisam ser confrontadas. Não ignoradas, achando que a vida cuida, como pensei por muito tempo. Mas mostradas como erradas e deixar claro o motivo disso (causar mal, incentivar injustiça a alguém).

“Ah, é que o cara é assim...”. “É que ela é muito simples, vocês não entendem”. “É o jeitão, não é por mal”.

Pode até ser ou não ser, mas pode acabar sendo, sobre ele mesmo, sobre ela mesma ou sobre alguém.

Conheço gente que cresceu apanhando tomate na roça desde criança e que já cometeu seus discursos preconceituosos e, com o tempo e referências sobre o que aquilo causa, mudou, entendeu, se conscientizou.

Ser pai ou mãe sem estar em um relacionamento não seria mais comum hoje se não fosse começado, mostrado, legalizado e valorizado há tempos como algo que faz bem para quem é e que não prejudica em nada quem não. 

O mesmo para quem não escolhe ter filhos. Idem aos casais gays. Ou mesmo sobre SER gay. Ou trans. Às mulheres em situações de “poder”. E pasmem: pretos podendo usar o mesmo banheiro que brancos.

Se não tivesse sido imposto, “militado” e chamado de chato, ou de exagerado, ou de absurdo, hoje não seria visto como “certo”, como possível e mais do que isso: ainda hoje não seria visto como algo natural, de bem, de direito. Direito de um que não prejudica em nada o direito de outro.


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