Eu errei no meu pedido de ano novo

 



O quarto do hotel não tinha sacada, mas a vista da janela era sensacional para o céu da cidade. Não tinha sacada mas, tinha banheira, tinha vinho, tinha nós dois em nosso segundo Ano Novo e eu só não tinha ao certo o meu pedido para o momento da virada. 

Com a contagem regressiva próxima do fim no relógio e os primeiros fogos estourando em minha frente, parece que a palavra certa havia sumido de repente.

Ao longo dos anos, eu sempre pedi por, acima de tudo, Paz, antes mesmo de Saúde - se a doença viesse, que eu tivesse Paz, pensava, penso (risinho bobo rolando) - mas depois de 2020, naquele último dia do tal ano, Paz parecia ser uma palavra que não voltaria jamais. Nem mesmo implorando. 

Dada a atmosfera do mundo naqueles últimos doze meses, pensei em - automaticamente - pedir por Saúde, mas ainda não era aquilo. 

Então, deu meu tempo. Acabo de entrar em 2021. Pedi. Fechei os olhos e mandei: eu desejo Saúde. 

Apesar de uma condição que teria ajudado muita gente no ano passado, este meu pedido ainda me parecia meio forçado. Eu não saberia explicar. Mas foi como dizer que estava uma delícia ao tomar um café que na verdade estava aguado. Dormi sabendo que, por algum motivo, meu pedido havia sido coerente, mas não transparente. 

Mais de dez meses depois da última virada, olho para o meu ano, penso sobre o meu pedido e me lembro de um caderninho de 2014 em que escrevi, nos últimos dias daquele ano: 2015, no topo da página, centralizado na folha, embaixo do ano escrevi Paz, embaixo dela, Saúde, depois Amor e encerrava com Consciência, em um sentido de não me faltar clareza e entendimento. Uma sequência perfeita, que formava uma pirâmide, da escrita menor no topo para a menor ao final, como uma árvore de Natal. 

Repeti esse ritual ano após ano, como um mantra. A última vez foi na virada para 2018 porque de alguma forma aquilo entrou no automático e não colava mais, se tornou algo um tanto forçado demais.

Na virada para 2019, sem escrever em lugar algum, fechei os olhos e senti o que eu queria, precisava e na certeza que, eu querendo ou não, a vida me daria o que faltava. Eu pedi por Amor. Tanto no reforço de continuar sentindo isso com minha família e amigos ao meu lado, mas também para a vinda de um bom namorado.

Em setembro, depois de quase passar o ano inteiro, conheci aquele que se tornou meu companheiro.

Ao lado dele na entrada de 2020, na janela do quarto de hotel, o abracei e agradeci. No meu desejo, foi por Saúde que eu pedi. Com certeza, posso dizer que a recebi. Mas ao lembrar daquele momento, hoje sinto que, lá no fundo, eu pedia era por Movimento. Mas quem faz ou entende um pedido como esse?

Acontece que, você pedindo ou não, a vida vai te colocar no caminho pelo qual você precisa passar. Por quê? Para você ser sempre verdadeiramente você. E a gente só se descobre diante do aprendizado, do entendimento e, eu te garanto, esses dois só acontecem por meio do Movimento.

Morte e nascimento, calor e frio, seco e molhado, em pé e deitado. É impossível se descobrir parado.

Sorte daquele que sabe viver na coragem para não se entregar à modelagem. Admiro quem sabe se bancar, em vez de só reclamar. De quem joga para o alto para não perder tempo se forçando a algo.

Sobre quem não pede, não busca ou não aceita o Movimento, eu sinceramente só lamento.



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