10 coisas que aprendi em 10 anos em 1 empresa

 


Texto escrito para o linkedin @matheusfarizatto


Ao entrar para a última empresa na qual trabalhei, conheci uma também jornalista que se tornaria mais que uma colega de trabalho, uma verdadeira irmã para mim – entre outras grandes amizades que essa experiência me trouxe. Foi ainda em 2011, durante nossos primeiros meses de trabalho juntos, que a Juliana Matthes virou para mim e disse: “Eu fiquei super feliz por ter entrado aqui, mas, como meu pai já me falou, são 5 anos, no máximo”. 
 
Ela ficou mais que 5 anos na empresa. Dobrou a aposta do pai. O pai dela, quem arriscou prever o tal prazo, morreu. Ela completou 10 anos na companhia e por lá continua, realizando muitas coisas para a indústria e para si mesma. 
 
Já o meu ciclo neste emprego ficou mesmo nos 10 anos. Até então meu período máximo na mesma organização era de 4 anos – o que eu já achava muito tempo. #SabeDeNadaInocente
 
Mas o que a gente acha com relação a previsões é tão importante quanto alguns planejamentos super bem estruturados e que são desviados como se eles nunca tivessem sido elaborados, não é mesmo? 
 
Porém, do presente dá para falar e ele nos ensina muito com base no que experimentamos no passado. Compartilho com vocês 10 coisas que aprendi durante 10 anos em 1 empresa. 
 
No meu caso, toda a movimentação que tive ao longo dos 10 anos me ajudou muito a manter o frescor, o entusiasmo durante essa experiência. Porém, sob a minha própria coordenação, que chegou a 16 colaboradores, trabalhei com pessoas com mais de 20 anos de companhia e – para a surpresa de alguns – na mesma função desde sua entrada para a empresa. Segura esse queixo. Estou falando de pessoas super realizadas com o que fazem todos os dias. 
 
O ponto aqui é o que você busca em um emprego. O que te realiza não é necessariamente a meta de vida do outro. Sem contar que esse desejo pode mudar de tempos em tempos.  
 
Quando escolhi cursar Jornalismo fui massacrado em um almoço de domingo em família. Uma tia minha puxou e o restante incentivou: “Vai ser jornalista pra quê? Acha que vai ser o Bonner? O negócio é ir para a área da Saúde!”, sugeriram uma técnica de raio-x e uma instrumentadora na presença de uma então futura estudante de Enfermagem – hoje formada e toda linda no trabalho.  
 
Me formei e quando comecei a trabalhar veio o novo conselho da parentada: “O negócio é ser concursado, Matheus, aí você pode ficar sossegado”. 
 
Acontece que ficar sossegado é uma coisa que você não deve fazer nem enquanto frita pipoca de panela. Se acomodar, aqui, é deixar queimar. Fora deste exemplo também. 
 
Me lembro de um dia estar no cantinho do café na empresa, logo que completei os primeiros cinco anos de experiência por lá, e um colega de equipe, com um ano de companhia a mais que eu, comentou, enquanto eu falava que era perigoso entrar nessa de que a empresa valoriza quem tem muito tempo de casa: “Tem muita gente antiga aqui, Matheus, é empresa tradicional, fica SOSSEGADO, não tem motivo para querer inventar mais coisa”. Foi mandado embora. Não chegou nem ao final daquele ano depois de uma queda nas vendas e necessidade de redução de despesas. Na necessidade de escolher, ficou quem nunca se acomodou.  
 
Entrei para a equipe de Comunicação da empresa como assistente. À época para cuidar do trabalho de assessoria de imprensa. Com apenas seis meses de companhia, recebi o desafio de trabalhar em um grande gerenciamento de crise de imagem de âmbito nacional da companhia junto à mídia. Desde então fui presenteado com oportunidade seguida de oportunidade. Algumas que surgiram, outras que criei. De passar a propor melhorias para atividades da equipe, que não eram diretamente da minha responsabilidade, passando por solucionar diferentes tipos de problemas – não só no nosso departamento, como nos demais da empresa – até chegar a estruturar a área de Atendimento ao Cliente. 
 
E o que um jornalista tem a ver com SAC? Se pensarmos que comunicação é uma forma de relacionamento e que comunicação é minha especialidade: muito a ver. 
 
Depois de recebermos a responsabilidade de cuidar das mídias sociais da empresa, comecei a analisar como o cliente era atendido ali e a propor novos posicionamentos, com foco na empatia e no encantamento para o cliente. Acontece que, quando o atendimento acontecia fora do digital, a empresa ainda não tinha um trabalho estruturado de forma ideal para isso. Foi assim que criei a oportunidade – para mim e para a empresa – e ampliei a equipe de 8 para 16 pessoas, juntando o planejamento e a produção de conteúdo ao oferecimento da melhor comunicação – somada a ações de relacionamento - também durante a atuação do SAC.  
 
Ao longo dos 10 anos, de assistente de comunicação, fui promovido para analista júnior, depois para analista pleno, então sênior e cheguei ao cargo de coordenador de marketing. Em meio aos aprendizados relacionados especificamente à ocupação de cargos mais altos, tive a sorte de ter uma gerente (beijo e obrigado, Claudia Pacagnella) que se juntou a mim no meio desse meu caminho de crescimento e me trouxe um ensinamento que ajudou - de um jeito muito prático - a conquistar o próximo passo: “Matheus, experimenta ser, agir, antes mesmo de ter o cargo. Se você quer ser sênior, como você já pode ir mostrando isso para a equipe por meio das suas atitudes, não impondo, sendo visto assim, conquistando essa referência?”. Bingo! 
 
O que alguns gestores sem noção podem usar para exploração - do tipo: assume novas responsabilidades que um dia a gente vê o que faz -, essa minha gestora me incentivou principalmente sobre novas posturas, em vez de responsabilidades. Resultado: ela me orientou, eu pratiquei, e, como eu e ela dissemos à época, o que veio depois foi só para coroar algo que eu já tinha conquistado entre as pessoas. 
 
Se Elis Regina cantou “Viver é melhor que sonhar”, me dá aqui o microfone porque eu diria mais: ouvir também é melhor que sonhar e ouvir te ajuda a viver. Quando fui promovido a coordenador e ao longo dos meus três anos na função, esse com certeza foi o aprendizado que me trouxe outros novos aprendizados.  
 
Da mesma forma que ouvi minha gerente sobre ser quem eu gostaria de ser antes mesmo de isso se consolidar, ouvir (principalmente) a minha equipe me tornou uma pessoa – e, consequentemente, um profissional - muito melhor. 
 
Ouvir é prática. Eu sou do tipo que quer fazer acontecer e um tanto agitado, então ouvir me ensinou, inclusive, a aquietar um pouco a mente e a fala para perceber o que acontece ao redor. Ouvir o que a equipe tem a dizer sobre você, sobre o trabalho, sobre a empresa, sobre eles mesmos é definitivamente melhor que sonhar sobre essas respostas, ou pior, deduzi-las e tomar como verdade. 
  
A Juliana Matthes virou minha Sis. A Talissa – que já tem um nome tão único e maravilhoso, ganhou um complemento: Lattypha. A Mari por Mérry. A Gi, Shi. A Cátia, Cat. A Dani, Dhanny. A Tássia, Tynna. Ana, Annie. Schmidt, Ximi. Lucas, Luke. 
 
Tem por escrito, por e-mail, para provar. Inclusive para me processar. Mas nunca rolou. Isso porque o respeito por essa turma sempre foi muito maior que qualquer apelido. E tudo concedido. Se algo incomodasse o pessoal neste sentido, nem chegaria a acontecer. Em vez de humilhação, isso nos trouxe aproximação. A proximidade numa troca muito aberta, que, por sua vez, trouxe confiança. Quem trabalha sem isso? Desculpa, vou reformular: quem trabalha com seu máximo de potencial e de forma criativa e produtiva sem respeito e confiança para se sentir à vontade para isso?  
 
Saí da empresa com um cartão assinado por todos, com os apelidos entre parênteses. Guardo e me emociono sempre que lembro, leio e visito essa nossa conquista que muitos manuais corporativos por aí sequer entenderiam.  
 
“Me chama pra sair?”. Nada mais triste que receber uma mensagem com esse pedido de alguém que passou tempos em um relacionamento, se colocando completamente isolado, sem contato com (em especial) os amigos e, quando acabou, adivinha? 
 
O que vale para o namoro ou casamento, vale para o emprego de 10 anos ou de 10 dias. Não se isole! 
 
Esta última empresa em que trabalhei é parte de um mercado bastante técnico e segmentado. Antes da pandemia, o formato de trabalho era presencial, na rodovia, em um distrito industrial. Em volta? Canavial. Tudo certinho para o desempenho da fábrica e da equipe, ao mesmo tempo que uma tentação para fechar os olhos somente rumo à essa dedicação. 
 
O meu trabalho era no setor veterinário, atento aos concorrentes, mas a gente sempre se puxava para a busca de referências em comunicações e posicionamentos de empresas completamente distantes desse segmento. Sempre de olho nas mais ousadas e diferentonas. O mesmo valeu para colegas jornalistas, fotógrafos, cinegrafistas, publicitários, entre outros trabalhos que nos alimentam e nos movimentam mesmo que os assuntos sejam completamente independentes. Um troca-troca menos safado que alguns por aí, mas ainda assim um troca-troca bem gostoso.  
 
É assim que, quando o casamento acaba, o romance por quem somos e pelo que fazemos continua. 
 
E quando você está suave no domínio do trabalho que você faz para o negócio da empresa no Brasil, ela decide que o mercado internacional é que vai ajudar trazer o que ela busca em crescimento de faturamento. Você não fala inglês. Acha que fala espanhol – porque muita gente acha y morirá pensando. E não vai rolar verba para bolsa de estudo de idioma. Para ninguém. E aí, você passa, repassa ou paga? 
 
O exemplo se encaixa em acomodação, que já comentei, mas também serve para mostrar a necessidade de ousadia de caminhar sem muletas. Aprendi isso principalmente na liderança da nossa turma. 
  
A cada três meses eu marcava uma conversa individual com o pessoal da equipe. A ideia era ouvir – porque é melhor que sonhar ou imaginar, lembra? -, mas ouvir mesmo, ouvir forte, sem filtro, sobre tudo. De trabalho até problema pessoal passando por treta com outras pessoas do time e chegando até a pedido de aumento. Isso era uma mega fonte de orientação para a minha gestão e para ajustes que melhoravam nosso desempenho. E isso nunca foi exigido pela empresa, como um programa, uma meta, uma imposição que muita gente fica esperando a galera do RH (sobra sempre pro RH, né?) entregar o caminho e o andador para passar por ele. 
 
Entre outros exemplos, no início da pandemia, lá em 2020, mandei fazer um pão de mel para cada um da equipe, confeitado com o personagem da Comunicação Interna (saudade, Pitaco, seu lindo!) e um cartãozinho com mensagem que dizia: “Você é muito importante. Obrigado por todo dia”. Paguei do meu bolso. Entreguei de carro (meu carro, sem combustível bancado pela empresa) na casa de cada colaborador. Um a um. Gente, foi maravilhoso. Pra mim e pra turma. E mais uma vez: não esperei RH ou diretoria ou outro gestor puxar a fila para botar pra acontecer algo que ainda não tinha rolado na empresa. Então, vai e faz. 
 
Da mesma forma que comer comida japonesa no primeiro encontro deu lugar a tomar açaí e o pilates ficou meio de lado nos stories graças ao crossfit, e o mundo que era VUCA agora é BANI, os novos perrengues vieram para mostrar que “guentá o tranco” passou a ser resiliência que passou a ser antifragilidade que na verdade vende melhor cursinhos online quando chamamos de Soft Skills. O curso é Soft mas a valorização disso quase sempre é Hard. Ou too much. 
 
Vi muita consultoriazinha querendo dar uma aproveitadinha. Em 10 anos na mesma empresa, confirmei o que eu já sabia desde o meu primeiro trabalho como entregador de panfleto nas casas do bairro em que morava a minha vó: o que faz uma empresa crescer é produto bom + atendimento melhor ainda + publicidade. 
  
O resto é inbound e outbound marketing, e outras dezenas de variações de nomes para publicidade que sem investimento não resolvem nada. Call to Action morre no e-book se não tem atendimento para a venda. Landing page pode pegar dados, mas os dados não compram se o produto oferecido não for bom. Data Science, Data Analytics e Business Intelligence não trazem grana se o seu atendimento não for diferentão na educação e no oferecimento de solução. 
 
Como constante aluno de marketing e acompanhante do mercado como falei antes, vi muita empresa rodar, rodar e não sair do lugar. Se perder em meio às modinhas por não saber para onde querem que a levem suas rodinhas.  
 
É necessário acompanhar tendências, mas sem a base para isso, é falar, buscar e não conseguir aplicar – pelo menos da forma correta. Se ainda assim não entendeu este ponto, call me maybe. 
 
Não precisa passar 10 anos ou mesmo um dia sequer para descobrir isso, mas, como diz a Azul Linhas áreas: “Você já sabe, mas não custa lembrar”. Seja sempre você mesmo. Se coloque quando necessário, não aceite ou deixe claro que não concorda com algo que não está de acordo com o seu perfil. Respeite. E respeite-se. Seja justo, nada mais ou menos que isso. 
 
Autenticidade não se aprende em curso ou livro. Nem se coloca em currículo. É mostrada ali, na reunião, na discussão de ideias, na condução com as pessoas, na tomada de decisão. Eu posso dizer que trabalhar do meu jeito, me ajudou, sim, nesta fabulosa experiência durante 10 anos em 1 empresa. Me promoveu. Me renovou. Me ensinou. 
 
Ser quem eu sou em todas as oportunidades que essa história me trouxe, me beneficiou muito mais que salário e planos de saúde. Sou muito, muito grato.
 
EPÍLOGO | Depois de pedir demissão após esses últimos 10 anos nessa empresa e outros 10 em outras, há seis meses abri a minha própria empresa para me dedicar à comunicação e tudo tem sido uma delícia. Obrigado demais às pessoas que vieram comigo desde antes e às que acabaram de chegar. 
 

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