Eu tenho olhado para as coisas com cada vez mais neutralidade, seguindo a linha de pensamento de que muito do que acontece só ganha o peso que a gente decide dar para aquilo.
Não precisa de muita experiência nessa prática para entender que isso não funciona para todos os casos, mas, para muitos deles, faz diferença e pode aliviar bastante a possível complicação da vida em alguns cenários.
A história que chegou para mim dessa vez e que eu liguei diretamente a esse pensamento foi a de um homem que se animou com um reencontro em meio a uma despedida.
No momento de tristeza, ele viveu um pouco de felicidade.
E foi julgado por isso.
Ao saber da morte da sua madrinha, o homem de quase setenta anos viajou rumo ao velório.
Depois de horas dirigindo, ele chegou ao último local em que veria a madrinha e o primeiro onde reencontraria alguns de seus parentes que, pela rotina, há muito tempo não os via.
No velório, dentre os encontros, ele conheceu sua sobrinha. Não que ele não a conhecesse antes, mas foi a primeira vez que ele a viu não sendo mais aquela criancinha.
Quando a encontrou toda moça, ficou tão feliz com a oportunidade de vê-la, encantando com o quanto ela cresceu e se formara linda, que tirou uma selfie com a menina.
Por meio da partida da idosa, a vida apresentava alguns segundos de aproximação com a jovem.
Poderia ter parado aí.
Mas alegria não se para.
Momentos depois, o homem compartilhou o reencontro enviando a foto com a sobrinha no grupo da família.
Imediatamente sua atitude foi vista como uma afronta à memória da madrinha, um desrespeito ao velório, mesmo que muitos ali sequer fizeram questão de comparecer.
Quem me contou sobre essa selfie do seu pai, foi sua própria filha.
Eu recebi a história com o entendimento de que a tristeza daquela despedida não precisava proibir a alegria daquele reencontro. Adorei sentir seu pai feliz por rever a sobrinha depois de tantos anos.
Mas compreender dá trabalho.
Entender contexto pede a vivência de diferentes referências.
Antes de se oferecer empatia, é preciso conquistar profundidade. E cada vez menos pessoas são capazes de formar suas opiniões tendo todo esse trabalho.
A maioria atrofia mais a cada dia e simplesmente vai no embalo.

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