Eu vou, eles ficam. Há semanas tenho confirmado o fenômeno, todos os dias. O semáforo fica verde e ninguém anda. Quando eu avanço, carros e motos olham para cima na busca de confirmar o sinal verde e, só então, aceleram.
Antes de notarem o movimento do meu carro pela visão periférica, seus olhares estavam no celular. Todas as vezes. Não importa o horário ou dia da semana. Uma tristeza.
Essa é só uma das provas do quanto as pessoas estão fora de si, fora do momento presente, vivendo e alimentando a automação, a falta de inteligência não-artificial.
Estamos vivendo o "sabor inteligência". Como no suco em saquinho que não tem fruta, mas tem o sabor fruta.
O emburrecimento é cada vez maior. O vazio de essência, o vazio de personalidade e de autenticidade servem cada vez mais alimento e maioria das pessoas está enchendo seus pratos com isso.
A maioria está. A maioria nem sabe que maioria concorda com está e não estão. A maioria estão, é erro gramatical. Mas a maioria, hoje em dia, sequer sabe disso ou que a escrita original de tá é está.
As pessoas não sabem mais diferenciar mas de mais. Detém de detêm. As pessoas não detêm mais quase nada sobre si mesmas, mas sobre o que a Virginia detém, ah, a isso elas sabem.
Tudo muito raso e artificial. Há pouco da inteligência real.
Ler os comentários de posts nas redes sociais é mais uma prova da limitação geral. De dez, sete citam Lula e Bolsonaro, mesmo que o conteúdo seja sobre álbum de figurinhas. Tudo virou sobre esquerda e direita enquanto praticamente ninguém está centrado.
Cada dia mais perde-se a referência do básico.
Há quem encha sua foto de perfil com tratamento de inteligência artificial que afina nariz, queixo e bochechas, mas jura que é apenas o efeito de uma maquiagem bem feita.
Falta coragem de se assumir.
A vidinha aqui passou a oferecer mais coragem para as pessoas se enfrentarem por trás das telas do WhatsApp e do Instagram, mas, a verdade é que quase ninguém tem coragem de se encarar.
Por isso se medicam de todas as formas: para ter onde se apegar. Por isso advogam por ídolos políticos: para ter com quem se identificar. Por isso se limitam a dogmas religiosos: para ter onde se orientar.
Não dão conta de serem que são independentemente de tudo.
Para quem tem o mínimo de consciência sobre si mesmo e sobre tudo que a gente pode ser, é triste demais assistir a essa transformação do povão em elenco do The Walking Dead (os m0rto-vivos, os m0rtos que caminham). Mas, verdade seja aceita: a maioria já está m0rta.
Há quem tenha milhares de seguidores e nenhum conhecimento básico, seja sobre a nossa língua, seja sobre a educação de um bom dia.
Há quem tenha milhões em carros e bolsas, e nada sobre a elegância de um sorriso ao agradecer alguém.
Assim como a nova inteligência, tudo muito artificial.
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