Tem que falar



Pra mim não existe conexão verdadeira com alguém se a gente não pode falar o que pensa.

Se eu costumava opinar claramente sobre as coisas que você compartilhava comigo e hoje isso não acontece mais, nossa relação foi rebaixada de Amigos para Coleguinhas de Instagram.


A manutenção disso exige um tanto das duas partes. Nem todo mundo consegue ouvir. Nem todo mundo consegue falar.


Há quem não fale por achar que dizer o que precisa ser dito pelo bem do outro é falta de educação, grosseria ou coisa do tipo.


Eu penso que falar é, simplesmente, falar (rindo da obviedade). O impacto sobre o outro vai depender da fragilidade dele. Eu penso que, se dito com respeito e boa intenção, são presentes que recebemos de quem a gente realmente tem conexão.


Certa vez, depois de um término de namoro, vieram me dizer que achavam que o phopho não era bom para mim. Mas durante o relacionamento nunca abriram a boca comigo sobre esse tema.


Tem que falar.


Dia desses no bar com duas amigas, ambas me falaram que eu estou "com barriga" - não a que eu sempre tive e que todos temos, mas uma versão expandida dela.


Eu, por não me faltar bom senso, já sabia. E entendi os comentários delas como um toque para eu me cuidar - e não estou falando só de estética aqui.


Uma amiga minha, sempre que no bar, costumava pedir seis porções, comer três sozinha e ainda fechar a noite com lanche. Tudo era colocado para ser divido igualmente na conta entre todos que estavam à mesa - mesmo que alguém tivesse comido um único palito de cenoura.


Falei e hoje a história é motivo de risada entre a gente. Era isso ou, pouco a pouco, eu (e talvez as outras pessoas) passaria a sair com ela só quando não quisesse gastar com mais nada no resto do mês.


Tem que falar.


Em meus relacionamentos, se eu começo a me calar é porque falta pouco para acabar.

Falar exige coragem. Ouvir exige o dobre dela.


Mês passado eu tinha dois compromissos em um mesmo lugar: a gravação com uma cliente que está comigo há dois anos e a reunião com um possível novo cliente.


Depois de rodar mais de dez minutos naquela avenida, simplesmente não havia onde estacionar. Os dois compromissos ficavam em uma academia em que só alunos podem estacionar. Eu não sou aluno.

Eu simplesmente voltei para o meu escritório depois de mandar um áudio para os dois, dizendo que remarcaria as agendas e iria de Uber nas próximas porque ali não tinha onde estacionar. Tudo numa ótima.


A cliente - que grava comigo toda semana e sabe como é - concordou tranquilamente e assim eu passei a ir de Uber aos compromissos com ela. Já o que seria o possível futuro cliente não me respondeu mais sobre novas agendas - talvez porque o assunto tenha deixado um mal-estar nele. Nele. Não em mim.


Ao longos dos anos, dadas às minhas experiências nisso de falar o que é preciso ser dito, eu ajustei as minhas falas para, com algumas pessoas, eu dizer apenas quando sou perguntado sobre o assunto porque tem gente que prefere não saber para não ter que se mexer.


Eu sempre prefiro saber.


Sem a conversa sobre tudo, as conexões viram espaços e excesso de espaço leva ao vazio.

E eu sou a pessoa que troca relações vazias por pratos cheios. Por isso o tamanho da minha barriga. 


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