Na fila para ver o Mickey no Disney Hollywood Studios em Orlando, uma amiga tirou um chocolate americano da mochila para a gente beliscar enquanto esperava e comentou o quanto sentia saudade do Chocolate Surpresa.
Para quem não teve o sabor de ganhar uma barra do Chocolate Surpresa quando criança, explico. Ele era um chocolate ao leite da Nestlé, muito saboroso, que trazia figurinhas colecionáveis de animais brasileiros junto do tablete.
Que graça uma criança acharia nisso em 2025?
Há pouco tempo ele voltou ao mercado. Na sua nova versão, as famosas figurinhas foram substituídas por cards virtuais acessados via QR Code que permitem ver os animais em realidade aumentada e jogar um game educativo no Roblox chamado "Mundo Surpresa".
Assim que ela comentou tal nostalgia, pensei: será que se ela comesse o Chocolate Surpresa hoje, sentiria o mesmo que sentiu quando criança?
Dia desses fui até a sorveteria Chiquinho, famosinha aqui na cidade, só para tomar o milkshake de ovomaltine - que para mim sempre foi muito melhor que o famosão do Bob's. Achei sonso.
Será que a receita mudou ou o que mudou foi o valor que essa experiência tem para mim?
Aos 38 anos, fui atrás de sentir o gostinho que eu tive com essa bebida aos 18. Além da diferença de idade e muitas outras mudanças por conta das minhas vivências de lá para cá, hoje eu poderia tomar esse milkshake todos os dias. Lá atrás, eu comprava ele uma vez ao mês, no dia do pagamento. Era o que dava.
Será que a facilidade de acesso é capaz de mudar o sabor que a gente sente sobre as coisas?
Essa foi minha quarta ida para a Disney de Orlando. Ao sair de uma das atrações que mais gosto, mandei mensagem todo choroso para uma amiga que também adora o Mickey. Emocionado, eu comentei sobre o quão especial é ter essa experiência e, mesmo que ela aconteça com certa frequência, não perder a graça, não deixar de sentir essa magia que sinto.
Será possível sentir de novo todo o entusiasmo de um beijo, como sentimos lá atrás, em nossa primeira grande paixão?
Depois de tanta decepção em relacionamento anteriores, sermos capazes de viver um novo colo ou mãos dadas no cinema de forma mágica?
Sou prova de que sim e sim.
Eu acredito que o que causa de novo o sabor na gente, muda de pessoa para pessoa.
Talvez não seja o chocolate ou o milkshake que mudou. A mudança foi em quem sente. O sabor da infância vem da ausência de preocupação. Da novidade de cada descoberta.
Esse prazer talvez não venha do sabor em si, mas do tempo em que aquele gosto existiu. Não é o chocolate, é a lembrança das amizades de infância que dividiam aquele chocolate com você. Não é o milkshake, é o dia do pagamento quando o dinheiro era pouco. Não é a Disney em si, é quem éramos quando sonhávamos com isso que parecia impossível se tornar realidade um dia.
Não é sobre viver de novo uma grande paixão, é sobre, mesmo depois das frustrações, você estar aberto para viver o amor que vai acolher o gostinho amago que você sentiu no passado e te oferecer novos sabores sensacionais que você sequer poderia imaginar existir.
Talvez a vida seja isso mesmo: a gente tentar repetir sabores, encontrar novos e, de vez em quando, se emocionar ao perceber que alguns continuam especiais, não porque são iguais, mas porque nos trazem de volta a quem realmente somos apesar dos dissabores que a vida já nos trouxe.

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