Se injeta

 

Será que é só aqui? Vou precisar que você me fale depois de ler, por favor. Ozempic e Mounjaro foram duas palavras que ouvi muito, excessivamente, demais, esse ano.

Aí também?

Sem contar o impacto de encontrar com pessoas que não via há tempos e ficar impressionado com a mudança física graças ao uso dos objetos que essas duas palavras nomeiam.

Sou a favor, sim, do uso e, mais a favor ainda, de termos coragem de fazer o que for preciso para que a gente se sinta bem, leve, em paz com quem somos.

Deu vontade? Marca sua consulta. Pega a receita. Compra e dá-lhe picadinhas.

Com o anúncio de um novo uso entre as pessoas que convivo, enquanto enchia minha caneca de café nessa manhã de domingo, me veio o pensamento que orienta este texto: qual foi a receita que abandonamos para chegar à necessidade dessa nova prescrição?

E aqui falo dos casos de quem busca emagrecimento por estética - o que consequentemente melhora a saúde e talvez a autoestima - mas não estou considerando o uso das "canetas" por tratamento de diabetes, por exemplo.

Da mesma forma que a obesidade nos levou ao pedido por picadinhas, algo nos levou à obesidade.

Inclusive eu estou em sobrepeso, tá gente? Para o caso de alguém de autoestima frágil achar que estou apontando o dedo e cagando regra. A ideia aqui é realmente fazer a reflexão do que vem antes desse uso.

É incrível o resultado que esses medicamentos podem trazer. Mas e depois?

Eu consigo manter o meu peso com dieta e exercício e sono regulares?

Em todos os casos que vi de pessoas em uso do Ozempic e do Mounjaro, to-dos são consequências do abandono de si mesmas.

A chegada dos filhos, o luto, o término de relacionamento, o excesso de trabalho. Foram coisas que tomaram o lugar do autocuidado e, na maioria das vezes, culminaram na compensação em pedidos no iFood.

Mais uma vez, eu me incluo. Por isso posso dizer com todas as letras: a culpa é nossa.

É a gente que deixa a coisa torar até precisarmos dessa ajuda - que, volto a dizer, é bem-vinda, mas não resolve o que precisa ser resolvido.

Pensa comigo.

O que vem antes da exaustão mental?

O que acontece, pouco a pouco, em um casamento até que os dois não suportem mais conviver?

Vale a busca por remediar. Vale mais ainda a busca por prevenir.

Vai precisar surgir uma nova pandemia para fazer a gente parar e olhar para o que a gente realmente precisa passar a se injetar?

O tempo vai trazer novas injeções emagrecedoras, cada vez mais acessíveis, cada vez mais tecnológicas.

Mas o que a gente precisa entender é que, lá atrás, quando começamos a fazer o login, foi quando começamos a nos distanciar do acesso a nós mesmos.


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