Consciência começa antes da adolescência

 


Leva os dois para o moleque, Nei. Não, eu falei para ele que era um só.

O amigo do meu pai tentou. Meu pai, em resposta, reafirmou.

Meu pai já tinha combinado comigo. Então, sem surpresas. Comigo, aos meus nove anos de idade.

A conversa aconteceu diante da barraca, em uma feira em São Paulo. Não sei dizer se era na região de uma dessas famosas por ter de tudo, como a vinte e cinco de março. Só lembro de muita gente em volta. Muita gente mesmo.

O meu pedido era pelo boneco do Ranger Branco... e do Vermelho.

Ambos da coleção Power Rangers. Ganhei o Branco. O Vermelho deve ter voltado para a sacola de moamba do cara que presenciou a tentativa do Cidão e a firmeza do Nei.

Não julgo meu pai. Inclusive, admiro a postura. Estava combinado de eu escolher uma coisa na feira. Além do que, a situação financeira na época não era das melhores.

Eu fui muito consciente desde cedo.

Na compra do mês, o pacotão cheio de pacotinhos trazia sabores diversos dos salgadinhos.

Todos os dias eu podia ver os vários pacotes. Aos sábados, eu podia comer um. Era assim que o pacotão durava o mês inteiro (estou sorrindo enquanto escrevo) - que gostoso lembrar disso.

Um pouco mais velho, talvez aos onze anos, ao chegar em casa à noite, quando eu então estava com os meus pais depois de eles trabalharem o dia todo, meu pai me perguntou: como foi o inglês hoje, Matheus?

Tranquilo. Normal. Respondi.

Ele. Você foi no inglês hoje?

Eu. Fui.

Mentira porque a secretária do Fisk ligou para a sua mãe perguntando por que você faltou.

Quase me caguei.

Eu realmente não fui. Não estava afim e fiquei fazendo hora no supermercado ao lado (saudade do Gimenez) com meu livro, caderno e estojo sendo revezados embaixo dos meus braços.

Me pegou na mentira da única vez que encanei. Me colocou em um castigo que eu não lembro. Mas não esqueço a cara de decepção dele e da minha mãe. Isso teve muito mais efeito em mim que qualquer restrição. Isso, sim, bateu em mim como punição.

Eu sabia o quanto era caro o curso de inglês e o quanto os dois trabalhavam para a gente ter as coisas.

A cada dezembro, com o décimo terceiro da minha mãe e a grana de presente da minha vó, íamos comprar roupa. Era simplesmente uma vez ao ano (estou sorrindo de novo) - também adoro sentir o valor disso e o quanto existe uma ligação com as dezenas de camisetas que compro hoje.

Começamos o ritual na Mesbla - que fechou - terminamos na Riachuelo. Depois eu comecei a trabalhar e eu mesmo tinha que comprar as minhas roupas.

Conforme eu cresci, vieram as responsabilidades de também ajudar em alguma conta em casa. Nada abusivo. Apenas um incentivo à minha consciência. Meus pais me davam o lar e a comida. Já escrevi um tanto sobre essa parte em diferentes goles nessa caneca.

Hoje quero lembrar do quanto isso me fez consciente desde cedo - e um pouco de como impacta em minha disposição com os adultos infantilizados e sem consciência que encontramos em nosso dia a dia.

Sem ataques. Proponho o olhar sobre o contexto. Tudo o que vivemos forma quem somos, mas, é a partir da tomada de consciência sobre nós mesmos e sobre o funcionamento da vida adulta que a coisa muda.

Entendamos que: sem exposição, não existe necessidade de decisão. Sem necessidade de decisão não existe necessidade de consciência. Sem necessidade de consciência, não existe essa mudança.

É assim que a criança segue. Aos trinta e tantos. Aos quarenta e poucos. Muitas vezes, até o fim.

Como a pessoa que, na infância, foi só ovacionada não vai se sentir mal ao ser contrariada?

A que foi adulada, agora não pode ser confrontada.

Só o adulto que já dormiu em sua casa sozinho, dá conta de agir conforme pede a verdade, sem necessidade de ajuste de discursinho.

Pouco a pouco, seus pais, velhos, se vão. Enquanto essas crianças envelhecidas aqui estão.

Crianças que ainda recorrem à cama dos pais sempre que sentem aflição. Que substituem o enfrentamento em meio à sociedade por animal de estimação. Que recorrem às grandes quantidades de postagens para disfarçar a postura da pequena criança que ficou na estagnação.

Podem até falar de consciência e maturidade, mas faltam as verdadeiras movimentações.

Maturidade não vem com o tempo. Maturidade vem com decisões.

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