Ninguém mais tem fome

 


Eu sou um entusiasta da sexta à noite. Essa coisa de fechar a semana, de não acordar cedo no sábado, de ter dois dias pela frente para curtir só com aquilo que a gente tem vontade. Em uma hora estamos trabalhando, na seguinte estamos nos deliciando. Eu amo.

Nessa sexta, eu estava ansioso por um Happy Hour. Chamei o pessoal e aquele entusiasmo gostoso, com gostosinho de vida, conduziu meu dia até a Hora Feliz no bar.

Em pouco tempo lá, o Happy deu lugar ao Stranger junto do Hour. A minha cerveja com torresmo veio com Mounjaro como acompanhamento.

“Nossa, se tem uma coisa boa da depressão é que eu não sentia vontade de comer”, serviu uma das pessoas à mesa. A frase chegou junto com a minha caipirinha feita de cachaça ouro que, em segundos, perdeu o brilho.

“Olha, eu acho ótimo viver sem aquele ‘tun, tun’ de fome na cabeça. É tão libertador”, trouxe a segunda pessoa ao lado da terceira que, por sua vez, estava tomando água e de dieta.

A quarta pessoa também não conseguia comer por conta do uso de remédio para emagrecer e quinta não bebia por conta de outro remédio, esse para a dor, depois de um acidente.

O Happy que virou Stranger se tornou uma Sad Hour. Que Hora Triste.

O momento que era para ser sobre o sabor de brindar a vida acabou em uma reunião sobre como é gostoso estar em restrição. Ninguém mais tem fome.

Parecia uma seita em que eu destoava dos dieters e moujarers.

É claro que eu sou a favor de as pessoas se sentirem bem e isso não está atrelado à encher a cara e comer igual uma orca. Temos que nos cuidar. Mas daí a achar sensacional não sentir mais fome, citando situações de depressão e de injeção, calma lá.

Parte da conversa foi sobre ter dinheiro para usar remédio para emagrecer por toda a vida. Precisa?

Eu estou com 39 anos, com pança, pneus e tetas. Fico de olho nos excessos alimentares e me esforço para me exercitar como eu deveria. Meu pensamento é: me cuidar sem me privar. Mais que isso: viver com alegria sem colocar a beleza de não sentir fome em idolatria.

Lembre-se que: não sentir fome também é viver em falta de vontade.

Ninguém mais come, por falta de vontade.

Ninguém mais sente. Ninguém mais se esforça

Falta de vontade.

Ninguém mais come, portanto, falta energia.

Essa coisa louca dos remédios para emagrecer está colocando as pessoas em apatia.

Espero que, em tudo na vida, a gente possa encontrar o equilíbrio. Afinal, a cabeça pesada, sem o corpo proporcional, faz a pessoa tombar.


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