Olga

 

Em janeiro de 2026, nasce a Olga. Em meio ao uso de tanta coisa artificial para simular coisas reais, o mundo ganhou algo extremamente verdadeiro.

O nome Olga é real. Diferente de Otto.

Experimenta. Aproveita que você conseguiu parar para essa leitura e fala: Olga.

Tem som de vida, tem a elegância do livro, no dá o sentimento de paz que temos quando tomamos um café passado na hora, no meio da tarde, enquanto olhamos para a chuva.

Olga é o contrário de pressa. O oposto do excesso.

Eu soube do seu nascimento pelo WhatsApp, no mesmo momento que minha amiga me apresentou o nome da sobrinha.

Imediatamente eu fui levado para a vida em que minha amiga me daria a notícia pelo telefone fixo que tocaria bem alto depois de eu ter ajustado o volume no pino de arrastar para o lado que ficava embaixo dele.

Ela teria ficado sabendo pelo cunhado que telefonaria para sua casa pelo orelhão da esquina do hospital. "Chamada a cobrar. Para aceitá-la continue na linha após a identificação... RAQUEL, ESTÁ TUDO BEM! A OLGA É A COISA MAIS LINDA!".

A gente iria ver a carinha da Olga dias depois. Enquanto isso, detalhes sobre ela seriam contados uma vez ao dia, ao telefone, durante quarenta minutos de conversa ao sofá, enrolando o fio enroladinho do telefone.

Na tarde da visita para conhecê-la, alguém pediria para uma das crianças buscar pão, presunto, queijo e rosca na padaria da esquina. Isso porque ninguém lembrou de levar comida, tamanho o entusiasmos para ver a pequena Olga pela primeira vez.

Em seu primeiro dezembro, Olga teria seu nome escrito à mão em seu primeiro cartão de Natal que chegaria em um envelope branco com selo colorido em sua casa. Eu receberia um assinado "por ela" junto de sua família, o qual eu descobriria de surpresa na caixinha do correio cinza chumbada na parede branca da garagem de casa. Ela fica ao lado da casinha de passarinhos feita em madeira pelo tio da minha mãe, um marceneiro de mão cheia.

Dali a algum tempo a Olga também poderia ver os filhotes de passarinhos aparecendo um a um na janelinha da casinha.

Enquanto o tempo passasse devagar, a Olga brincaria na rua, assistiria desenhos animados na TV pelo começo da manhã e adoraria pintar com giz de cera até a hora de dormir.

Enquanto o tempo passasse devagar, ela conheceria os gibis da Mônica, uma preparação para os livros de Harry Potter que, mais tarde, nos levaria para alugar os filmes do bruxo na locadora do bairro, na torcida de o nosso favorito não estar alugado na noite de sábado.

Quando chegasse o momento de finalmente ir ao cinema, Olga levaria o dinheiro contado para o lanche e o ônibus em sua bolsa de barbante feita à mão pela sua vó, especialmente para ela.

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