As coisas demoram

Essa semana meu WhatsApp saiu do ar. Por um problema de backup no celular, as mensagens não chegavam nem saiam. O aplicativo chegou a não abrir.

Quando abriu, cada mensagem que tentava chegar mostrava o texto: “Aguardando mensagem. Essa ação pode levar alguns instantes”.

Foram quase dois dias até voltar ao normal. Quando voltou, um tsunami de mensagens me arrastou para longe. Longe da minha paz.

Tinha gente me mandando mensagem para avisar que mandou mensagem. No mesmo dia. Com o intervalo de três horas.

Isso me fez pensar como toda a facilidade da tecnologia nos trouxe para uma condição triste de esquecermos que as coisas demoram.

Gente, as coisas demoram.

Esse é o normal, o natural e saudável.

Achou absurdo ou incoerente ler isso?

Algumas pessoas talvez nem entendam esse texto porque existe, sim, a versão rápida de praticamente tudo.

Mas o gostoso está em quando as coisas demoram. E pasmem, a gente tem, sim, tempo para que elas aconteçam.

Desde a invenção do café solúvel você não precisa esperar a água passar pelo pó no coador. Cápsulas. Máquinas. Expresso.

Tudo muito expresso.

App de relacionamento é sempre assunto no Caneca. Em apenas quinze segundos você desliza três fotos, lê duas linhas de texto no perfil e decide se aquela pessoa é interessante ou não. Quando vão para a troca de mensagens, a tolerância é de, no máximo, vinte minutos de conversa para se permitir conhecer o outro ou não.

As conexões levam tempo.

Lembra da internet discada?

As coisas demoram. Pensa no tempo que a gripe impõe entre chegar e passar. No tempo da gravidez. Da cicatrização. Da curtição até o primeiro encontro. No tempo do ajuste para viver o melhor s3xo da sua vida. Do entendimento sobre si, sobre a vida, sobre o fim dela. Isso tudo demora, gente.

O livro demora para ser escrito. Impresso. Lido. O filme para ser produzido. São coisas que demoram para serem compreendidas.

A complexidade demora.

O amor leva tempo.

Existe graça na demora. Na demora das plantas. Do vinho. Do bonequinho feito em crochê. Da toalhinha bordada pacientemente pela avó para que você a tivesse pela vida inteira.

Dia desses comi um molho de tomate tão perfeito. Simples. Impecável. O segredo do sabor está no tempo para engrossar, no tempo para o excesso de água secar.

No tempo que demora, gente.

É o tempo que nos tira dos excessos.

Demora.

Aproveitar o tempo não está em fazer o máximo de coisas possíveis. Está em curtir a demora dele para as coisas boas acontecerem.


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