Terapia que traiu



Comecei a terapia porque eu não acreditava mais na possibilidade de me relacionar.

Depois de um fim de relacionamento inesperado, em que eu achava que nada daria errado, encontrei um terapeuta com quem eu me animava de estar toda segunda à noite ali sentado.

Pouco a pouco, trabalhei a minha frustração de a bicharada estar mais interessada em se dedicar à foto do espelho na academia do que aos valores que vêm de uma boa parceria.

A cada sessão, eu comentava sobre o quanto o meio gay me desapontava.

Em alguns meses descobri muitas coisas em mim. A cada semana, eu descobria alguma coisa no meu terapeuta.

Eu nunca perguntava sobre a vida dele. A gente seguia um ao outro no Instagram. Vez e outra ele postava algo com os sobrinhos e seu doguinho.

Na sala de meia luz, a dois, a sós, ele me contou sobre a doença do seu cachorro, a dengue da sua mãe e sua própria dengue.

Os meus textos publicados aos domingos, vez ou outra eram assunto na segunda. O psicólogo lia quase todos. Isso nos ajudava a entender - e me mostrava claramente - minha evolução nos temas que a gente trabalhava juntos.

Certo dia, essa parceria até então monogâmica foi escancarada em um ménage à trois imposto por um terceiro.

Na aba de Pedidos de envio de mensagem no meu direct do Instagram, estava o recado de um fofo que eu sequer sabia quem era.

Era o namorado do meu psicólogo.

O pequeno texto - resultado, provavelmente, de muito tempo livre - o apresentava como o então namorado e me mandava um recado indelicado.

Falava sobre a minha relação com o terapeuta ter ido “além” e que eu deveria pensar nisso porque eu pareço “ser inteligente”.

Tudo porque, em uma foto do meu terapeuta com seu cachorro, eu comentei “Coisas lindas”.

Pronto. O namorado do terapeuta, aparentemente sem terapia, ficou P da vida.

Claro que o caso foi parar na minha sessão seguinte - quando o psicólogo me pediu desculpas por isso, entre outros comentários que cabiam na ocasião.

Na mesma sessão, rimos quando eu disse que isso seria assunto de um texto do Caneca, um dia.

Talvez a gente não deveria ter tido um ao outro no Instagram. Sei que alguns terapeutas preferem não seguir ou ser seguido por seus pacientes. Mas, pra mim, esse não foi o ponto.

O ponto foi a cabecinha do fofo.

O que aquele moço fez foi surreal demais. Me abordar daquele jeito… e se eu estivesse tratando uma mania de perseguição, alguma fobia social? Ele atravessou tudo, sem sequer falar com o seu namorado, meu psicólogo.

A terapia durou mais duas sessões, se não me engano. Pra mim não fazia mais sentido continuar, por dois motivos.

O primeiro: há tempos eu já havia me entendido como quem sou, de onde vinha minha disposição para relações capengas, o que eu merecia e queria, e que nem todo viado é esse fiasco.

Nesse finalzinho de terapia, eu já estava conhecendo meu namorado.

O segundo ponto foi: como eu poderia ser orientado por alguém que aceitava aquele fofo como namorado?

Saber disso reforçava a descrença que comentei no início do texto.

Foi assim que tive minhas descobertas, confirmações do que eu já sabia e reencontro para eu seguir por minha conta. Me dei alta.

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