Chegando para a reunião em uma cliente que se tornou amiga, senti meu coração muito acelerado, acompanhado de um suador um pouco gelado para a temperatura de Ribeirão Preto. Ela calmamente me pediu para sentar um pouco e me serviu água.
Passou a batedeira e aí chegou um aperto no peito. Uma pressão em cima do coração que incomodava, pouco a pouco, um tanto mais. No prédio comercial em que estávamos, minhas amigas (ela e sua mãe) tentaram um encaixe no cardiologista que conheciam por ter consultório ali.
"Neste caso, ele precisa ir para o plantão para atendimento porque se acontecer algo não tem como socorrer ele aqui". Esse foi o recado da secretária do médico para minha amiga, repassado a mim. Segui direto para o plantão. Chegando lá, me levaram direto para aferir a pressão (arterial) por conta da tal pressão (no peito) que só aumentava. Eu sentia tontura. Boca seca. Mãos geladas e o tal suador.
Nessa sala do pré-atendimento, o aparelho disparou duas luzes vermelhas e o rapaz da triagem levantou rapidamente abrindo a porta lateral da sala, que dava acesso às salas de atendimento de emergência, não à sala de espera por onde eu vim. "Você vem para cá e já deita naquela maca". "Minha pressão está alta?", perguntei. "Sim", secamente, aparentemente tentando manter o controle. Não me disse o quanto.
Fiquei em uma maca, sozinho numa sala de atendimento, enquanto avisava minha família sobre o que tinha acontecido até ali. Feito isso, coloquei o celular no bolso e as mãos sobre o peito. Meu coração estava tão disparado e a dor no peito tão aguda que levei as mãos para cima da barriga e depois para a lateral do meu corpo porque sentir meu batimento e aquela dor com a própria mão no lado esquerdo do peito me deixava ainda mais apavorado. Comecei a orar e a meditar sem parar.
Uma coisa curiosa sobre este momento é que cheguei ao ponto de, depois do apavoro e mil pensamentos na cabeça, simplesmente passar a sentir paz, confiando no que tivesse que acontecer, sem medo de morrer.
O que se seguiu nas próximas cinco horas foram medicação, eletro, exames de sangue e observação para então ser liberado.
"Tudo normal", disse o médico com os resultados dos exames em mãos. Um normal que eu jamais imaginei passar. O médico recomendou a ida a um cardio só para acompanhamento porque, segundo ele, se tivesse algo anormal, os exames mostrariam.
Antes do veredito do doutor, um enfermeiro e duas enfermeiras me perguntaram se eu era ansioso, enquanto ainda realizavam os exames. "Não que eu saiba ou perceba", comentei rindo de nervoso.
Ao sair de lá, minha mãe e minha tia me esperavam lá fora - depois de a minha mãe conseguir invadir a recepção e chegar até a sala que eu estava rsrs para me ver por alguns segundos e me dar um beijo na testa, pouco antes de o segurança surgir atrás dela rsrs.
Liberado, fui para a casa dos meus pais comer uma boa sopa feita pela minha mãe e tomar um bom calmante fornecido pela minha irmã. A dor no peito foi diminuindo ao longo da noite. Amanheci com o peito sem dor, porém pesado. Uma vontade de chorar ainda me bate quase que o tempo todo, mesmo quatro dias depois dessa experiênci.
Entre os aprendizados, compartilho com você a certeza da sorte de quem não morre sozinho, digo, desacompanhado fisicamente. Se meu coração tivesse parado naquela maca, provavelmente teriam tentado me reanimar, mas nada garantido. E a última coisa que eu teria visto seria aquele piso em pedra cinza com as luzes do teto da sala refletidas nele e pensamentos a mil sobre a minha vida, até serem acalmados com oração.
Assim é com muitas pessoas que partem, mesmo que em internação há tempos em um hospital, na hora da morte, podem estar sozinhas. Mesmo com o homem que estava acompanhado da namorada no carro e infartou atrás do veículo enquanto tentava desatolar o pneu traseiro, sozinho. Sozinhos.
Esses últimos quatro dias me colocaram em uma mistura de fragilidade sobre a vida, medo de acontecer de novo, o entendimento do que me levou até isso e uma tentativa quase inútil de me esforçar para sair desse sentimento de tristeza e prostração. Me recolhi e dormi tanto o quanto consegui.
Sobre o caminho até este evento, há cinco meses ouvi do meu ex companheiro que ele precisava se reencontrar longe de mim e que passou a me ver apenas como amigo. Sem tempo de tratamento. Ele foi. Eu fiquei, no sentimento, no lugar que era o nosso apartamento.
De lá para cá, altos e baixos passaram a acontecer de hora em hora em meu emocional. Quando eu finalmente me sentia bem, numa constante de realização e de paz, um sonho me desequilibrou. Um sonho! Um sonho com ele em nossa rotina em casa, nossa vida que, aparentemente, nada faltava. Que hoje me falta. Me derrubou pelos dias que antecederam a pressão louca no peito que me fez (quase literalmente) PARAR na emergência.
É louco chegar a isso e não sair porque não sinto falta dele, não reataria uma relação com ele. Trata-se da falta de uma vida que tive, uma pessoa que eu era, um dia a dia que eu tinha, uma situação com a qual eu contava e me realizava.
Os dias vão seguir assim até que a vida me surpreenda de novo. Ela sempre surpreende. Assim como esse susto que me fez pensar que meu peito iria me perfurar, outras coisas vão continuar aparecendo.
Não tem outro caminho que não seja insistir, seguir, caminhar, lutar. Levou uma porrada? Para, recupera, segue. Outro aprendizado é desistir de entender. Parar de pesquisar. Não faz sentido procurar sentido. Cuide de você, no seu ritmo, do seu jeito, vivendo, mesmo que chorando.
O título deste texto vem do comentário de uma amiga: "Chora vendo!". Tudo bem se emocionar, mas isso não pode fazer com que você perca a vivência. Chora, mas não deixe de procurar enxergar. Sofre, mas não desista de tentar melhorar. Passe por tudo que tiver que passar, tentando jamais deixar de agradecer e de amar.
NOTA | Esse texto foi escrito em 8 de maio de 2023 e nunca foi publicado. Três anos depois, eu posso dizer que passou, que tudo passa e que, sim, a vida me surpreendeu de um jeito muito melhor do que eu seria capaz de sonhar.

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