Não tenho mais o email, mas me lembro bem do conteúdo dele.
Um leitor me mandou sua mensagem dizendo que um texto meu fez ele mudar de ideia sobre se m4tar.
Isso faz mais de dez anos. Me emocionei muito com o texto dele ,depois de ele ter se emocionado com um texto meu.
Olhando para isso hoje, mais velho, entendo melhor o quanto eu não tinha dimensão disso, desse impacto, da mudança de algo tão pesado nele, originada por algo escrito tão despretensiosamente por mim.
Tempos depois, um cara com quem eu estava saindo, comentou: “Eu não crio expectativas com você porque sei que você não quer relacionamento”. Perguntei de onde ele tirou isso. Ele respondeu que leu em um texto meu. Em um texto escrito dois anos antes desse nosso date.
Eu expliquei que eu não estava mais naquele momento, que mudei. Ele respondeu “ah tá, sei”. E aí eu mudei. Mudei de companhia. Trazendo para os dias de hoje, eu estava há semanas sem escrever e o motivo foi o impacto que outro texto teve em outra pessoa.
Dessa vez, a leitura serviu de “gatilho” - detesto esse termo. Prefiro dizer que o texto causou um trem na pessoa e fez ela passar a pensar em mil coisas (negativas) sobre a vida (dela).
Semanas depois do fervo que o assunto virou, eu não só confirmei o impacto que alguns dos meus textos têm, sim, sobre as pessoas, mas também passei a entender como eu não tenho controle sobre isso.
Eu até escrevo pensando em causar algo bom em alguém, mas, eu jamais escreveria planejando causar esse trem que não vou repetir a palavra tosca que comentei ali em cima.
É preciso entender de uma vez por todas que aquilo que nos causa desconforto fala estritamente sobre a nossa percepção das coisas. Isso, claro, não isenta a falta de respeito, quando ela acontecesse.
Mas o impacto sobre a gente é, sim, por conta do peso que damos para aquilo.
Terceirizar a responsabilidade sobre os nossos sentimentos é o ápice da infantilização.
Tem algo que eu amo fazer, inclusive quando estou doente: me fazer perguntas.
Se algo me incomoda: por que isso está me incomodando assim?
Quando com febre e dor: o que eu preciso entender sobre estar nesse estado?
Gente. É surreal como a gente SEMPRE encontra a resposta em nós mesmos, geralmente confirmando como esse incômodo é sobre algo que diz respeito a nós mesmos, não ao outro.
Mas. Não basta fazer o exercício de olhar para si antes de culpar o texto. É preciso ter coragem para se encarar.
Que este texto te faça algum bem. Caso não, já sabe o que fazer.

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