O conforto no desconforto




Sempre achei que o ápice da intimidade era a noite de sono a dois, juntos, ali, na mesma cama. É mais íntimo que o s3xo.

É o momento em que estamos vulneráveis, expostos, sem controle. Desarmados enquanto entregues ao inconsciente e sem qualquer controle sobre a imagem que projetamos.


De uns tempos para cá, entre um gole de café e uma observação silenciosa no sofá, comecei a me aprofundar nessa tese e pouco a pouco, consegui desdobrá-la em algo que vou tentar explicar aqui.
O sono é passivo. A gente não escolhe estar vulnerável enquanto dorme. A gente simplesmente apaga. Confia em quem está do lado e se entrega ao inconsciente.


Essa intimidade, acrescentada de amor e maturidade, nos coloca em outro patamar: o conforto que podemos sentir naquilo que seria desconfortável ao lado do outro.


Explico.


No começo de qualquer relação, a gente busca o encontro absoluto, o match em gostos e concessões e concordâncias. O desejo é comer na mesma hora, rir das mesmas piadas e, sagradamente, deitar no mesmo minuto. Se um vai dormir e o outro fica ali, com a luz do abajur acesa ou o barulho da TV baixinho, soa o alarme do "algo está errado", para alguns casais.


O descompasso parece ser o trinco que um dia vai se tornar rachadura.


Mas a evolução da intimidade está naquele amor que já passou pela fase do esforço superficial e agora busca a força da profundidade. É passar a curtir quando a dupla desafina, erra o passo e pisa no pé do outro.


É quando um adormece primeiro e o outro continua ali, habitando o mesmo espaço em frequências diferentes, e achar isso uma delícia. É o conforto de saber que a presença do outro não exige a sua presença porque já foi construída a presença a dois para todos os momentos.


Outro exemplo desse "desconforto curado" acontece na fala. Ou na falta dela.


Sabe aquele comentário que a outra pessoa faz e que, em outros tempos, dispararia em você uma resposta pronta, ácida ou defensiva? Aquela frase que "pede" um embate para aliviar o seu ego? Aquela coisa de precisar se colocar?

 
A maturidade de um casal se prova quando você sente o desconforto da frase, mas escolhe não comentar e isso traz conforto sem questionar a conexão entre vocês.


Não é sobre deixar de falar por preguiça, por medo, silenciamento ou repressão, mas por pertencimento. Por entender que preservar a paz do "nosso" é mais valioso do que a razão do "meu".


Ficar confortável no suposto desconforto é o diploma de pós-graduação de uma relação.


É a arte de ser dois, com ritmos, tempos e silêncios distintos, dividindo o mesmo teto sem a urgência de consertar o que não está quebrado, está apenas diferente.


Se você já consegue dormir enquanto o outro está desperto, ou calar enquanto o ego quer gritar, parabéns. Você descobriu que a magia não está na perfeição da sincronia, mas na beleza de estar seguro enquanto o mundo (aqui dentro dos dois) insiste em sair do compasso, muitas vezes por conta do caos do mundo lá fora.


No fundo, íntimo mesmo não é só dormir junto. É estar desperto, atento a todas as imperfeições do outro, e ainda assim, sentir que não existe lugar no mundo onde você prefira estar acordado, sem fugir, lado a lado. 


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