Faz mais de um ano que observo isso e se faz mais de um ano que observo, preciso escrever. Em meio as conversas com a minha família e amigos, frequentemente ouço e falo: "Não sei se eu já te falei...".
Em seguida soltamos algo do passado que, provavelmente, sim, já compartilhamos entre nossas conversas.
Ontem à noite no chope com uma amiga, lá estava a sentença. "Não sei se já te contei que...".
Sentença de anos de vida juntos, compartilhando tudo. Sentença de amizade. De cumplicidade. De verdade e de vivências.
Teve o momento em que eu dizia, "sim, você comentou...", antes mesmo de a pessoa (re)contar o assunto.
Agora, não.
Ouço. Tudo de novo.
Ao final, acrescento gentilmente: "sim, eu lembro".
Vejo que as pessoas me oferecem o mesmo ao ouvirem com toda disposição minhas histórias que se repetem.
Fiquei pensando no presente que é termos isso com alguém, especialmente em dias quando tudo é raso a ponto de nem conseguirmos aproveitar uma situação, imagina repeti-la.
Conquistar esse isso com alguém é evoluir do ponto de ouvir por educação para o de ouvir por pertencer.
Pertencimento leva tempo. Muitas vezes não vem nem com o tempo. Porque é preciso ter confiança no outro. E isso não é só questão de tempo juntos.
Com a maturidade que vem ao longo dos anos e a quantidade imensa de assuntos que só existem graças ao nosso entusiasmo de viver, eu entendi que repetir uma história não é falta de assunto; é excesso de confiança.
É saber que o outro é caixinha de memórias profunda o bastante para que possamos revisitar momentos sem o medo do julgamento ou do tédio.
Houve o tempo em que a novidade era o critério para marcarmos um bar. Hoje, confirmo que a reiteração de tudo que somos (incluindo quem já fomos) é o critério para escolhermos estar com alguém em meio ao chopinhos de uma quinta à noite.
Quando alguém me diz: "Não sei se eu já te falei...", o que eu ouço agora na emoção da pessoa é: "Eu me sinto tão à vontade com você a ponto de te permitir entrar nessas lembranças comigo sempre que quero revivê-las por mais alguns minutos".
Contar e ouvir de novo a mesma história é como assistir ao nosso filme favorito pela décima vez. Vocês já sabem o final, conhecem as falas, mas o prazer está no conforto dessa familiaridade conquistada a dois.
Contar com quem você possa contar a mesma dor ou o mesmo sorriso de cinco anos atrás — e ser ouvido como se fosse a primeira vez — é o ápice da generosidade humana. É uma forma de amar e ser amado.
Na próxima vez que você ouvir "Não sei se eu já te falei...", não interrompa. Deixe o outro te servir uma memória que é importante para ele. Divirta-se tentando encontrar o detalhe que ele esqueceu da última vez ou confirmar cada um deles de novo e novo.
Em tempos de poucas reprises e infinitos lançamentos, o verdadeiro luxo não é ter novidades todos os dias, é ter alguém que conhece todas as suas reprises e, ainda assim, faz questão de ficar até depois dos créditos finais.

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